Unblack Lisbon · A invisibilidade do negro na fotografia portuguesa

Incubadora de publicações gráficas
RV Galeria de Arte e Cultura

Exposição e lançamento: 5 dezembro 2020 · Sábado · 10 às 16h



Ando a esmo. O frio e a chuva quase não dão trégua.  Os poucos dias de sol e luz são um alívio ilusório. Em todo canto escuta-se a polifonia dos idiomas circulando nos eléctricos, ocupando o Chiado, invadindo o Mosteiro dos Jerónimos. Cidade fixe onde as pessoas fazem contato visual contido, em saudação muda e cálida. Salvador está presente a todo instante: contrastes  e semelhanças, saudade e repulsa, fluxo-refluxo enviesado de um lado a outro do Atlântico. 

Percebo como são raros os negros onde há presença massiva do turismo. Deslocados em seu não lugar, permanecem invisíveis ao olhar estrangeiro. Nos sítios em que mais circulo, Praça da Figueira, Rossio, Praça D. Pedro IV e também no Largo São Domingos, onde um memorial evoca o massacre de milhares de judeus, em 1506, noto a explícita separação: de um lado, vários grupos de turistas bebem ginjinha; do outro, a algaravia dos imigrantes que conversam com entusiasmo. Observam-se de longe. Não se misturam. Não parece haver disposição para o diálogo. 

De forma suspeita, sento-me em um dos bancos onde africanos se concentram. Ao perceber que tento fotografá-los, um senhor, alertado por outro, vem e me interpela. “Cá não podes fazer isso”, diz com firmeza, porém sem rispidez. Peço desculpas e antes de me retirar como um ladrão de imagens dos mais ordinários, mostro a câmera desligada. Aqui ele aparece apontando um lugar vago, como se dissesse aos intrusos: “fora daqui”, mas ao mesmo tempo me impulsionando a buscar outros espaços. Ao publicar a foto clandestina, evitei que ele tivesse o rosto identificado. Era o mínimo a ser feito para respeitar o seu território. 

Em mais um dia sem rumo, mudo o percurso para a calçada oposta na rua da Palma e descubro por acaso o Arquivo Municipal Fotográfico. Em cartaz, os Yanomami de Claudia Andujar. Por ignorância, entro na sala de pesquisa com a certeza de que vou  me deparar com um Verger em versão lusitana. Mas a atendente, muito solícita, diz que não há registros de negros, que seria difícil encontrar esse tipo de imagem. Por sua indicação, ainda vasculho todo o acervo virtual do Centro Português de Fotografia, que fica no Porto. Nada encontro.  

Durante uma oficina com José Soudo, folheio  o fotolivro mais importante de Portugal:  Lisboa, cidade triste e alegre, de Costa Martins e Victor Palla, publicado em 1959.  Pergunto por que é tão raro encontrar negros retratados pela fotografia portuguesa. “Sim, é difícil. Sei que naquela época [do regime salazarista],  os negros eram considerados como não pessoas”, ele responde. 

Do alto do miradouro São Pedro de Alcântara, a vista é muito gira. O vento gelado castiga a pele. Turistas alheios, de habituais feições apalermadas, carregam vistosas leicas penduradas no peito e fotografam  os casarios iluminados pelo sol de inverno.  Não menos invisível, circulo ao lado deles recordando as palavras de Soudo. Penso  que a  depender da direção que  se aponte as objetivas do mundo, continuaremos todos não sendo. Pessoas. 

Janeiro-Março, 2017.   
 
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