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[Pirro]
30.mai.2021  |  Domingo  |  17h31


       Ser traseirista naquela época, além de vocação e dom, exigia coragem. Podia ser até motivo de orgulho pra alguns, mas pra mim era uma questão de necessidade. O dinheiro da passagem que eu conseguia não dava pra semana inteira. Pra estar no turno da manhã do cursinho, em idade já dissonante, eu tinha de escapulir muitas vezes pela porta traseira dos ônibus que cruzavam a avenida Sete e paravam no ponto do Politeama, quase em frente ao cine Art. Os cobradores me odiavam mais do que seus patrões.

       Na maior parte do tempo eu assistia, com olhos esgotados, aquela rapaziada desfilando como blocos de gesso em linha de montagem. Eles seguiam a cartilha acreditando que, ao pagar as mensalidades em dia, já estavam encaminhados na vida. Orgulhosos, passavam flanando pelas catracas da entrada principal. Jamais seriam barrados pelo disparo escandaloso e delator do alarme, uma espécie de Serasa sonoro que só constrangia os inadimplentes cheios de pose como eu.

       Concentrados em seus exercícios, eles se consideravam os fodões por memorizar o menos bê mais ou menos raiz de bê ao quadrado menos quatro a cê sobre dois a. Formavam grupos herméticos, unidos pela certeza de um futuro tranquilo. Afagavam-se uns aos outros quando acertavam as questões mais difíceis: eram os maçons da química orgânica, os sacerdotes das equações trigonométricas, os templários dos movimentos retilíneos. 

       Até havia bons professores, geralmente os mais sérios. Já os péssimos tentavam camuflar suas deficiências fazendo macaquices. Eu ria apenas quando eu lia as tirinhas de Angeli nas páginas da Chiclete com Banana que eu enfiava nos módulos. Pra amenizar a minha burrice, eu botava apelidos neles: Hipoglós e Rhalah Rikota. Walter Ego e Osgarmo, o Precoce. Ou então me distraía sozinho com os nomes mais esquisitos da tabela periódica. Até mesmo às aulas de história eu assistia sem empolgação, desconhecia a utilidade prática do pouco que aprendia. Nada me atraía pra ganhar o mundo, todas as profissões acenavam com as mãos vazias, e eu ficava brutalmente cansado só de pensar nisso. Por fora às vezes eu sorria pra tentar me enturmar. Por dentro, eu carregava um coração folheado de zinco.

       As meninas mais bonitas sempre se sentavam nas primeiras filas. Pros donos dos cursinhos, eram cortes especiais na vitrine do açougue. Não eram poucos os que se matriculavam na ilusão de rolar alguma coisa. Os professores babões até se esforçavam, mas era mesmo complicado manter a linha. Era um tédio e tanto assistir àquele jogo. Certo, eram lindas. E daí?

       Depois da aula, dar de cara com o sol embrutecido do meio-dia a caminho da Estação da Lapa era um alívio, mas ter de retornar pra casa era a coisa mais opressiva. Nas dependências do cursinho, eu sentia o mesmo peso invisível sobrevoando a minha cama estreita de colchão manchado. As provas se aproximavam e eu não via sentido naquela competição. Correria desconexa no dia dos simuladões, comoção provocada pela divulgação dos cursos mais concorridos. Na saída, eu sempre ia comer um dog com suco de laranja numa barraca na ladeira do Salete, mais em conta do que o Rei do Hot Dog na Piedade. Depois, passava em frente à Biblioteca Pública com seus atendentes tão apáticos quanto eu, em direção ao final da General Labatut, onde ficava a lojinha de discos que recebia uma fauna em horários de visita variados: estudantes das escolas públicas, punks, aposentados, góticos, desocupados. Quase todo dia eu ia fuçar as capas dos velhos vinis. Alguns encartes eram verdadeiras obras-primas, um tipo de criatividade revigorante. Eu ficava até um pouco alegre, sorria e tudo. Eu gostaria de ser um capista de vinil, em alguma parte devia existir vagas para uma profissão assim, eu pensava. De tanto frequentar o espaço, fiz amizade com Robson Cabide, o dono da loja. Era magro e de pouca conversa, com ombros bem largos e olheiras de louco melancólico. Foi lá que me deparei um dia com Strangeways here we come. Não é preciso dizer mais nada. 

       Lembro bem do alvoroço quando ela surgiu. A visita de uma cliente tão, digamos, incomum, mudou até o comportamento de Cabide. Ele tornou-se falante, oferecendo todas as gentilezas possíveis. Eu e ela nos conhecíamos apenas de passagem pelos corredores do cursinho. 
   
       E aí, beleza. Ela perguntou.
       Beleza. 
       Você vem sempre aqui depois da aula?
       Venho durante também, respondi.
       Legal. Não te vi no simulado de redação.
       Não deu. Como foi lá?
       Foi chatão. Você tá conseguindo entender tópico frasal?
       Que nada, tô perdido. 
       Eu também. Em análise sintática você tá indo bem?
       Menos ainda, aquilo é inútil.
       Também acho. Olha, vim procurar um disco de um cantor meio antigo, pra dar de presente, mas parece que não tem.
       Que cantor?
       Jackson do Pandeiro.
       Acho que vi um dele aqui.
       Sério?! É tão difícil de achar... Já tô quase desistindo.
       Mas é algum específico?
       Não, não. Pode ser qualquer um.

       O telefone tocou. Cabide teve de atender e prossegui orientando a cliente. O LP estava escondido numa prateleira mais alta, no fundo da loja. Foi assim que me tornei amigo e, pro meu azar, confidente de Glorinha. A garota mais cortejada do cursinho. Da alta diretoria às catacumbas dos serviços gerais, todos se viravam quando ela passava. Além disso, era muito simpática. Bastava um simples bom-dia seu pros otários acharem que a menina ia dar pra eles. De tão luminoso, seu sorriso provocava delírios coletivos. Ela pediu pra escutar o disco. Ao colocar o fone de ouvido, começou a balançar o corpo discretamente ao som do baião. Cabide e os outros marmanjos não tiravam os olhos de cima da menina. Ao seu lado, enquanto percebia seus contornos, eu me perguntava quem teria sido o responsável por aquela criação.

       Com a minha nova amiga, tão bela e acessível, meu prestígio com os caras da turma subitamente saiu do patamar negativo e atingiu os mais altos degraus da canalhice. Todos pediam pra eu facilitar, passando número de telefone, esse tipo de coisa. Uns acreditavam que tinha algo rolando. Não seria nada mal. Porém, se rolasse, seria por brevíssimo tempo, e eu terminaria um esquizoide quando tudo se acabasse. Aquele laço era uma conquista resignada, geradora do meu maior prejuízo. Pirro era o meu nome. Glorinha, a minha vitória mais extravagante. 

       Escapar sob o sol de concreto do meio-dia era um alento. Do outro lado da rua, avistei os quatro rastas de sempre vestidos com seus macacões laranja imundos de breu. Suados, os garotos de Kingston espalhavam betume sobre um enorme buraco na pista interditada. Observá-los por um tempo me fez compreender que eu gostaria de ter a fibra deles ao empunhar suas pás sob o céu sólido, mas a minha falta de gana não tinha cura e eu só conseguia ser duro o suficiente apenas pra me manter longe de casa. No outro dia, eu me encontrava disperso na aula, rabiscando minha primeira capa de vinil na última página do módulo. A noite anterior lá em casa tinha sido conturbada. Aos poucos, a voz do professor recitando o trecho de um livro foi ficando cada vez mais nítida. Ele não parava de enaltecer um trabalho. Prestei mais atenção e descobri que se tratava de versos de uma canção de raiz nordestina. Não pude ver exatamente onde Glorinha estava sentada, mas nem foi necessário. De relance, localizei seu perfil em meio à artilharia da primeira fila. Vaidoso, ele segurava um LP e agradecia o presente de aniversário de uma admiradora se dirigindo a um ponto difuso de sua claque. Agitadas, as outras garotas se cutucavam com risinhos histéricos e mexidinhas nervosas nos cabelos, apontando-se umas às outras.

* * *

       Durante o recesso junino, perdemos contato. Ainda tentei ligar várias vezes de um orelhão defeituoso perto de casa, que funcionava sem engolir as unidades do cartão. Ela nunca estava. No retorno das férias, na primeira manhã, nos reencontramos na cantina. O rabo de cavalo e a pele bronzeada de Glorinha eram um atentado, marcas da alcinha do biquíni destacando os ombros luzidios. Sorrindo, veio ao meu encontro, saturando as cores do ambiente, única fotofobia que alegremente me cegava. Ela me abraçou efusiva. Fiquei ali sentindo o seu calor e latejando. Nem tentei disfarçar.

       Ela começou a mostrar as fotos da sua viagem a Itacaré com o professor. Deslumbrada, me disse que tinha sido uma verdadeira aventura. Choveu bastante no primeiro dia. O carro apagou no meio da estrada. Tiveram de esperar amanhecer, até o mecânico chegar. Aproveitaram pra beber vinho e experimentar umas coisas, ela não soube explicar direito o quê. Enquanto pesadas gotas metralhavam o teto metálico do veículo, testaram várias vezes a resistência das molas do banco traseiro. Juraram ter visto embarcações cruzando lugares desabitados, oceanos trincados pelo fogo, pessoas afogadas pela água da chuva. Depois, caminharam até a praia de Jeribucaçu, tomaram banho de cachoeira no rio de Contas. Eu vi a foto da pousada onde ficaram hospedados durante três dias e, principalmente, três noites. Fascinada, ela disse que ele era carinhoso, um cavalheiro dedicado a agradá-la até nos gestos mais simples. Eles fizeram a trilha da praia da Engenhoca, onde chuparam talhadas de melancia [“deliciosas!”] e tiveram tempo de conhecer o Havaizinho. Estiveram na Prainha, adormeceram num fim de tarde em Itacarezinho e prometeram voltar pra acampar e passar mais tempo juntos naquele jardim das delícias. Glorinha me mostrou o retrato desfocado deles num restaurante alternativo da Pituba, o centrinho do lugar, onde comeram a melhor pizza de suas vidas. A certa altura, meio contrariada, mencionou a esposa do professor, mas logo em seguida voltou a vibrar com as lembranças do clima das praias [“superastral!”]. Pediu conselhos sobre suas atitudes com o namorado, a coisa mais insuportável que uma garota pode fazer com qualquer pretendente mesmo se tratando de um inerte como eu, mas dissimulei. Ainda me mostrou um cartão assinado por ele logo abaixo de frases apaixonadas e repletas de pontos de exclamação. O papel despertou em mim um secreto sentimento de vingança: somente um cretino inábil com as palavras poderia usar tantas exclamações. Ela guardou as fotos na mochila e saiu. Fiquei lá, sentado por um tempo, sem enxergar nada. Depois fui caminhando mecanicamente pra sala de aula. As imagens dos triângulos rabiscados no quadro me trouxeram o teorema de Pitágoras à lembrança. Concluí que era completamente irracional enfrentar o poder de um cateto maior na disputa pela hipotenusa mais desejada.

       As coisas lá em casa transbordaram: fumaça, sirene, gritaria. As catracas na entrada do cursinho começaram a impedir a minha entrada. Tive que deixar tudo pra trás. Terminei cooptado como auxiliar de almoxarifado num galpão que ficava nos limites da região metropolitana, pros lados de Valéria. Eu tinha que conferir as entregas, anotar tudo em ficha kardex e armazenar pesados tubos de aço de acordo com a milimetragem e tipo de material. Não tive gás pra chegar até o final do ano, nem fiz o vestibular. Quando saiu o resultado, conferi na lista, por curiosidade, os nomes conhecidos. A facção dos engessados foi toda aprovada. O lote de carne de primeira até se saiu bem. Mas o nome de Glorinha não tinha sido relacionado para o curso dos seus sonhos: medicina. Sem conseguir falar com ela por telefone [o número já não existia ou havia sido digitado errado, dizia uma gravação], nas minhas folgas eu vagava em frente ao cursinho, às vezes nos três turnos. Reencontrei alguns remanescentes da turma, os repetentes crônicos, e pensei até em mandar um recado por uma de suas amigas, mas achei que seria forçar demais. Na verdade, eu nem sei o que diria se a encontrasse novamente. Tempos depois, eu soube que o professor foi enquadrado pela esposa. Minha amiga terminou se casando e ficou irreconhecível depois do segundo filho, foi o que me contaram. 

       Continuei administrando o meu desânimo, sem conseguir me livrar totalmente da obrigação de estar sempre bem pros outros. Usei a rescisão do meu primeiro e último emprego pra comprar todo acervo da lojinha de Cabide e arrendar o espaço. Com os CDs decretando o que parecia o fim dos LPs, até saiu barato. Ninguém podia adivinhar que os bolachões voltariam com tanta força. Até hoje, ao escutar Girlfriend in a coma, tenho uma espécie de febre ao esperar por uma reviravolta igual a dos vinis. 

       Mas aquela Glorinha jamais ressuscitaria, eu sei.


Conto reescrito a partir de um original publicado vagamente em uma coletânea.



* * *
 

[Oferenda]
13.mai.2021  |  Quinta-feira  |  11h33

Durante quase sete anos, trabalhei com o Exu de Carybé bordado no peito. A farda de funcionário da Fundação Casa de Jorge Amado, a mesma que me invisibilizava, também me permitia transitar livremente entre dois mundos: o das encruzilhadas de um Pelourinho no auge da efervescência turística e o das expressões artísticas, especialmente Fotografia e Literatura.

Foi atendendo aos visitantes da Fundação que, magro e sempre com escoriações do futebol na praia do Bogari, descobri Verger e a revista Exu, além da experiência jamais imaginada de lançar um livro, iniciando uma vida errática de escritor [ainda que isso me provoque estranhamento e até certa repulsa]. Já as encruzilhadas do Centro Histórico me levaram a conhecer gente do mundo inteiro que nunca mais voltarei a ver, aos becos etílicos do pardieiro depois do expediente de sexta, às madrugadas fortuitas acompanhadas do lúbrico mistério feminino.

O Tempo, o Pelourinho e a Casa de Jorge Amado são grandes mestres, a tríade metafísica que nos reveste de vitalidade. Acho improvável que, sem ter vivenciado tudo aquilo, a Revista Laroyê sequer fosse cogitada e tomasse esta forma. Foi preciso aprender a cair e a manter-se em silêncio, alegrar-se com o imprevisto, com a contramão em labirintos, participar de porres dionisíacos, estar alerta à autossabotagem, exilar-se de si mesmo para frequentar moradas dissonantes. 

Do alto das portas da imponente Casa Azul, assentado no adro do verso de Caetano, o Exu de Tati Moreno observa o pé da Ladeira do Pelô, a encruzilhada de seis caminhos onde o sétimo elemento é quem pressente e se fortalece com a circulação das energias, algumas delas traiçoeiras. Universo particular pelo qual sempre tive uma atração ancestral que dispensa explicação.


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[Pequeno mapa do tempo]
31.jul.2020  |  Sexta-feira  |  14h39


Martins Diogo Correia/Acervo pessoal
Martins Diogo Correia/Acervo pessoal
Foto: Arquivo Histórico Municipal de Salvador/FGM
Foto: Arquivo Histórico Municipal de Salvador/FGM
Acervo pessoal
Acervo pessoal

Corridas de Fórmula 1 nas manhãs de domingo sempre me fazem recordar do meu pai. Eu tinha por volta de onze anos, um cabeção desproporcional ao meu corpo franzino e até hoje não tenho a menor ideia de como me envolvi naquele perrengue infantil. Só sei que fui recrutado à revelia e, desde as noites de sábado, passei a detestar o dia seguinte: eu não poderia mais assistir às corridas, pois teria de fazer a coleta para a associação que ele liderava. 

Andávamos por vias entulhadas de lixo e sobre palafitas onde as pessoas se amontoavam. Eu ia de cara amarrada carregando os meus apetrechos: a lista dos associados em um classificador pardo, um talão de folhas verde-claro e uma bic amarela de bocal azul. Minha função era preencher o recibo, destacar o canhoto e fingir alguma simpatia. Eu me sentia péssimo. Nem os elogios à minha caligrafia, horrorosa na época, me animavam. Além disso, eu morria de vergonha quando encontrava as meninas com quem já fantasiava uma vida a dois ou a três. Eu ficava com as mãos geladas quando percebia que elas me estranhavam naquele papel de coletor de impostos mirim. Também suava frio quando minhas amigas, muito mais bonitas sem a farda invisibilizante da escola, me confundiam com um crente. Uma derrota mais dolorida do que deixar o motor morrer na largada.

Já meu pai, além de me exibir, ficava muito à vontade ao entrar na casa das pessoas [que nos recebiam muito bem] para anotar as reivindicações que ele encaminhava aos órgãos públicos. Os ofícios, escritos em sua Olivetti Lexicon 80,  tornaram-se famosos nas repartições devido aos vestígios literários do seu estilo. Um feito de aspectos machadianos para quem só estudou até o quarto ano primário e nasceu em Encarnação de Salinas, um minúsculo ponto perdido entre Itaparica e o Recôncavo profundo.

Sempre na companhia de seu Jaime, de acentuada magreza e queda pelo álcool, explorávamos sob sol e chuva cada beco daquelas ruas de calçamento precário: Barco da Farinha, Santa Clara, São Francisco, Simeão Sobral, Dom Sebastião Leme e a esquina da avenida Meninão com a Luciano Amorim, onde nasci.

Sobre o meu mundo-vasto-mundo, eu sentia um peso sem nome que apenas na fase adulta se revelaria em dissonância: perceber as pessoas preocupadas em contribuir, mesmo vivendo em barracos improvisados sobre a maré, me causava um grave desconforto. E os sócios eram fidelíssimos, faziam questão de estar em dia, mantendo seus nomes em heróica adimplência. Entretanto, além da obsessão do meu pai por mulheres e cigarros, ele também sonhava com o imóvel próprio da sede comunitária, que de fato foi construído em regime de mutirão.

O único momento descontraído só acontecia quando avistávamos seu Lídio na porta de casa, magro, com seu bigodinho grisalho e camisa de botão aberta. Ele e meu pai se transformavam em meus colegas da 5ª série, um ameaçando o outro de surras humilhantes que não passavam de mera provocação e zombaria. A gargalhada deles é a lembrança mais amena daquelas aborrecidas manhãs dominicais. Eu até esboçava um sorriso diante da cena, mas para minha angústia eu lembrava que em uma semana, toda aquela obrigação franciscana se repetiria. Sem direito a pole position, mais uma vez.


* * *
[S o n h o #2]   
26.jun.2020  |  Sexta-feira  |  13h09
 © 2016

Você e eu estávamos levando para Itaparica mil blocos antigos numa prancha de surfe azul-claro, feita de isopor, larga e um pouco desgastada na parte dianteira. O oceano de águas límpidas estava bem calmo e você comentou que só com aquele "mar de almirante" seria possível levar o material [atravessando a Baía de Todos-os-Santos]. Já chegando na parte rasa de uma praia, eu me desequilibrei e terminei derrubando os blocos, caindo no mar de maneira estabanada e aflita. Você permaneceu tranquila sobre a prancha e comentou que o incidente foi natural devido à minha ansiedade. Enquanto eu retirava da água os blocos que se tornaram bem mais pesados, você, vestindo uma saída de praia branca, se deitou numa espreguiçadeira para ler um livro de capa branca. Bem próximo dali, havia uma espécie de casa de material de construção bem simples, feita de madeira e ripas escorando a estrutura improvisada. Além do cara que me atendeu com simpatia, me passando informações sobre o local, dois outros indivíduos estavam rondando por ali e fiquei com receio deles roubarem os blocos encharcados que eu colocava na areia. Em seguida, um homem branco e alto, com alguns quilos a mais, vestido camisa polo e calça brancas estacionou uma SUV branca plotada com uma logo verde-amarelo da Petrobras e desceu do veículo de modo arrogante, como se estivesse ostentando sua posição, o que despertou a minha imediata antipatia.


* * *
[S o n h o #1]   
16.jun.2020  |  Terça-feira  |  13h23
 © 2019 

Eu estava em algum restaurante de espaço amplo, no Rio Vermelho, quando anunciaram que o mundo acabaria. No mesmo local, eu assistia a uma espécie de coletiva, mas só havia uma repórter entrevistando uma pessoa sem relevância. A repórter era jovem, branca, de cabelos pretos, parecia recém-formada e meio deslumbrada com o primeiro evento de grande porte que ela cobria. Ela informava sobre o fim do mundo como se estivesse falando de um momento de celebração. Logo após a entrevista, numa breve conversa à parte, eu a alertei sobre o equívoco. Cabisbaixa e decepcionada com o seu desempenho, ela me disse que iria mudar o estilo da abordagem.

Lá fora, a agitação e a expectativa do bombardeio obrigavam que as pessoas caminhassem em ritmo acelerado. Além de desorientados, todos pareciam mais mesquinhos do que o habitual, denunciados por suas posturas corporais.

A primeira explosão foi meio decepcionante: um estampido abafado e sem potência que gerou uma fumaça branca que pude ver pairando sobre os telhados. Escutei comentários sobre a possibilidade da bomba ter falhado e, por um instante, eu até ri, imaginando que tudo aquilo fosse apenas um alarme falso. Mas logo em seguida vieram duas explosões em sequência, mais graves, cuja fumaça transformou o céu em cinza claro, provocando uma chuva fina em forma de pequenos flocos, salpicando as vidraças das janelas. Pelo que entendi, todos teriam uma morte fulminante pelo envenenamento causado pela fumaça. Não havia como escapar.

Lembrei que gostaria de me despedir de duas mulheres em especial, mas isso não seria possível por mais que eu tentasse, nem mesmo por meio de mensagens instantâneas. Frustrado, me vi então no portão de casa, tentando proteger uma jovem (a repórter deslumbrada?) após um garoto passar cantarolando pela rua e lançar indiretas ameaçando estuprá-la. Pedi que ela fosse logo pegar uma pistola, preta e robusta e, ao me entregar a arma, ela não acreditou que eu tivesse coragem de atirar no garoto franzino pelas costas enquanto ele dobrava a esquina. Respondi que era apenas uma precaução.


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[G i n g a]   
15.jun.2020  |  Segunda-feira  |  22h37
A partir da ausência que impele o movimento, gira-se o corpo em busca da esfera que flutua distraída, talvez, com a passagem do rio, impávido e sereno em sua marcha oceânica. Nada restará além de uma vaga memória, um recorte enviesado do tempo: o drible que se improvisa no ar evitando o choque, a bola invisível que se amortece no peito, o arremate preciso que explode na trave oculta. Composições se alteram, palavras de ordem lúdica ecoam nos limites da contra costa. E a partir da presença que impede o movimento, gira-se o corpo para o lado oposto em busca da fagulha interior, talvez retraída, necessária para um desenlace de gênio.

Ilha de Boipeba
Novembro, 2019

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Imagem que faz parte da campanha 150 fotos pela Bahia, iniciativa de um grupo de fotógrafos e agentes culturais baianos, que reúne no site www.150fotospelabahia.com.br fotografias autorais doadas por fotógrafos baianos, cuja venda será revertida para instituições sociais e culturais afetadas pela pandemia de Covid-19. Cada foto será vendida por R$ 150,00, e, entregue na residência dos compradores, pelo correio, em papel algodão, no tamanho 20 x 30cm. A campanha é realizada pela NMNC Produção Artística, em parceria com a Fundação Pierre Verger, Canson Infinity e Estúdio Lukas Cravo, e apoio de instituições culturais e educacionais do Estado da Bahia. As fotos também estarão disponíveis no Instagram @150fotospelabahia
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[S  e  r  e  n  d  e  e  p]   
08.jun.2020  |  Segunda-feira  |  13h01
 © 2020

Em 2222, arqueólogos realizavam escavações à moda antiga para catalogar vestígios do homem-vagalume, o último a manter a lucidez até ser trucidado pela onda do Terceiro Ódio. Entretanto, em meio às buscas, pesquisadores constataram que a causa da erradicação da memória no país extremo não fora a gripe letal, mas a saliva infectada de uma ratazana de ridícula estatura, alimentada por matilhas de robôs-borderline. Além disso, cientistas coletaram diversas amostras de crânios com perfurações, ainda embalados por máscaras inúteis de tecido rústico. Estarrecidos, eles também descobriram ossadas dispostas em fila: à espera de um socorro programado para jamais chegar a tempo; asfixiadas no subsolo de uma agência bancária destinada ao massacre em série.

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[Crônica de um amor bandoleiro]
16.abr.2020  |  Quinta-feira  |  18h25
 © 2020

Dentre tantos pensamentos imperfeitos e vastas emoções em torno do nome de Rubem Fonseca, ele sempre me faz lembrar a época magra e solitária em que eu fuçava as estantes do sebo Berinjela, numa transversal da rua Chile. Era algo por volta do ano 2000, um tempo muito propício para esbarrar em malucos dispersos pela cidade, meio desesperados para ler tudo do autor de Bufo & Spallanzani. Conheci diversos.

Um desses amigos, um doido provisório que a vida fez desaparecer aos poucos do convívio, praticava a grande arte da bibliocleptomania sem o menor pudor: em qualquer vacilo de um vendedor de livraria do centro, ele saía sorrateiro e orgulhoso com um RF enfiado sob a camisa. Um objeto de desejo que não raro circulava por mãos escusas até ninguém mais saber o seu paradeiro.

Havia um frisson ao redor da leitura de Rubem, uma certa ingenuidade analógica que nos irmanava. Era inevitável a empolgação com a descoberta de Onze de maio, O inimigo, Relatório de Carlos, A força humana e tantos de seus outros contos e romances. Por outro lado, era uma época inviável para conhecer o passado de Rubem. O seu trabalho como executivo da Light e delegado de Polícia era o máximo que se alcançava. Constatar, tempos depois, como foi intensa a sua participação na propaganda pró-golpe de 1964 foi uma ruptura e tanto, vamos admitir. 

O que vivemos de mais bizarro num país estropiado em 2020 é um híbrido da ficção fonsequiana mais delirante e um rebotalho dos filmetes que ele roteirizou, sob a admiração dos generais, nas dependências do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais [IPÊS]. Talvez esta seja a chave para a sua recusa patológica em participar de entrevistas e eventos literários. 

Assim, a cortina foi se fechando novamente, provocando a nossa asfixia: o Berinjela, os cobradores com um livro debaixo do braço e todos os cinemas do centro desapareceram. Restaram os papéis enferrujados, um buraco na parede da memória afetiva escavado por chutes desferidos por coturnos sem rosto.

Que agora você descanse ao lado dos seus fantasmas. 
A vida é mesmo uma prebenda, José.​​​​​​​