[Pequeno mapa do tempo]
31.jul.2020  |  Sexta-feira  |  14h39


Martins Diogo Correia/Acervo pessoal
Martins Diogo Correia/Acervo pessoal
Foto: Arquivo Histórico Municipal de Salvador/FGM
Foto: Arquivo Histórico Municipal de Salvador/FGM
Acervo pessoal
Acervo pessoal

Corridas de Fórmula 1 nas manhãs de domingo sempre me fazem recordar do meu pai. Eu tinha por volta de onze anos, um cabeção desproporcional ao meu corpo franzino e até hoje não tenho a menor ideia de como me envolvi naquele perrengue infantil. Só sei que fui recrutado à revelia e, desde as noites de sábado, passei a detestar o dia seguinte: eu não poderia mais assistir às corridas, pois teria de fazer a coleta para a associação que ele liderava. 

Andávamos por vias entulhadas de lixo e sobre palafitas onde as pessoas se amontoavam. Eu ia de cara amarrada carregando os meus apetrechos: a lista dos associados em um classificador pardo, um talão de folhas verde-claro e uma bic amarela de bocal azul. Minha função era preencher o recibo, destacar o canhoto e fingir alguma simpatia. Eu me sentia péssimo. Nem os elogios à minha caligrafia, horrorosa na época, me animavam. Além disso, eu morria de vergonha quando encontrava as meninas com quem já fantasiava uma vida a dois ou a três. Eu ficava com as mãos geladas quando percebia que elas me estranhavam naquele papel de coletor de impostos mirim. Também suava frio quando minhas amigas, muito mais bonitas sem a farda invisibilizante da escola, me confundiam com um crente. Uma derrota mais dolorida do que deixar o motor morrer na largada.

Já meu pai, além de me exibir, ficava muito à vontade ao entrar na casa das pessoas [que nos recebiam muito bem] para anotar as reivindicações que ele encaminhava aos órgãos públicos. Os ofícios, escritos em sua Olivetti Lexicon 80,  tornaram-se famosos nas repartições devido aos vestígios literários do seu estilo. Um feito de aspectos machadianos para quem só estudou até o quarto ano primário e nasceu em Encarnação de Salinas, um minúsculo ponto perdido entre Itaparica e o Recôncavo profundo.

Sempre na companhia de seu Jaime, de acentuada magreza e queda pelo álcool, explorávamos sob sol e chuva cada beco daquelas ruas de calçamento precário: Barco da Farinha, Santa Clara, São Francisco, Simeão Sobral, Dom Sebastião Leme e a esquina da avenida Meninão com a Luciano Amorim, onde nasci.

Sobre o meu mundo-vasto-mundo, eu sentia um peso sem nome que apenas na fase adulta se revelaria em dissonância: perceber as pessoas preocupadas em contribuir, mesmo vivendo em barracos improvisados sobre a maré, me causava um grave desconforto. E os sócios eram fidelíssimos, faziam questão de estar em dia, mantendo seus nomes em heróica adimplência. Entretanto, além da obsessão do meu pai por mulheres e cigarros, ele também sonhava com o imóvel próprio da sede comunitária, que de fato foi construído em regime de mutirão.

O único momento descontraído só acontecia quando avistávamos seu Lídio na porta de casa, magro, com seu bigodinho grisalho e camisa de botão aberta. Ele e meu pai se transformavam em meus colegas da 5ª série, um ameaçando o outro de surras humilhantes que não passavam de mera provocação e zombaria. A gargalhada deles é a lembrança mais amena daquelas aborrecidas manhãs dominicais. Eu até esboçava um sorriso diante da cena, mas para minha angústia eu lembrava que em uma semana, toda aquela obrigação franciscana se repetiria. Sem direito a pole position, mais uma vez.


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[S o n h o #2]   
26.jun.2020  |  Sexta-feira  |  13h09
 © 2016

Você e eu estávamos levando para Itaparica mil blocos antigos numa prancha de surfe azul-claro, feita de isopor, larga e um pouco desgastada na parte dianteira. O oceano de águas límpidas estava bem calmo e você comentou que só com aquele "mar de almirante" seria possível levar o material [atravessando a Baía de Todos-os-Santos]. Já chegando na parte rasa de uma praia, eu me desequilibrei e terminei derrubando os blocos, caindo no mar de maneira estabanada e aflita. Você permaneceu tranquila sobre a prancha e comentou que o incidente foi natural devido à minha ansiedade. Enquanto eu retirava da água os blocos que se tornaram bem mais pesados, você, vestindo uma saída de praia branca, se deitou numa espreguiçadeira para ler um livro de capa branca. Bem próximo dali, havia uma espécie de casa de material de construção bem simples, feita de madeira e ripas escorando a estrutura improvisada. Além do cara que me atendeu com simpatia, me passando informações sobre o local, dois outros indivíduos estavam rondando por ali e fiquei com receio deles roubarem os blocos encharcados que eu colocava na areia. Em seguida, um homem branco e alto, com alguns quilos a mais, vestido camisa polo e calça brancas estacionou uma SUV branca plotada com uma logo verde-amarelo da Petrobras e desceu do veículo de modo arrogante, como se estivesse ostentando sua posição, o que despertou a minha imediata antipatia.


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[S o n h o #1]   
16.jun.2020  |  Terça-feira  |  13h23
 © 2019 

Eu estava em algum restaurante de espaço amplo, no Rio Vermelho, quando anunciaram que o mundo acabaria. No mesmo local, eu assistia a uma espécie de coletiva, mas só havia uma repórter entrevistando uma pessoa sem relevância. A repórter era jovem, branca, de cabelos pretos, parecia recém-formada e meio deslumbrada com o primeiro evento de grande porte que ela cobria. Ela informava sobre o fim do mundo como se estivesse falando de um momento de celebração. Logo após a entrevista, numa breve conversa à parte, eu a alertei sobre o equívoco. Cabisbaixa e decepcionada com o seu desempenho, ela me disse que iria mudar o estilo da abordagem.

Lá fora, a agitação e a expectativa do bombardeio obrigavam que as pessoas caminhassem em ritmo acelerado. Além de desorientados, todos pareciam mais mesquinhos do que o habitual, denunciados por suas posturas corporais.

A primeira explosão foi meio decepcionante: um estampido abafado e sem potência que gerou uma fumaça branca que pude ver pairando sobre os telhados. Escutei comentários sobre a possibilidade da bomba ter falhado e, por um instante, eu até ri, imaginando que tudo aquilo fosse apenas um alarme falso. Mas logo em seguida vieram duas explosões em sequência, mais graves, cuja fumaça transformou o céu em cinza claro, provocando uma chuva fina em forma de pequenos flocos, salpicando as vidraças das janelas. Pelo que entendi, todos teriam uma morte fulminante pelo envenenamento causado pela fumaça. Não havia como escapar.

Lembrei que gostaria de me despedir de duas mulheres em especial, mas isso não seria possível por mais que eu tentasse, nem mesmo por meio de mensagens instantâneas. Frustrado, me vi então no portão de casa, tentando proteger uma jovem (a repórter deslumbrada?) após um garoto passar cantarolando pela rua e lançar indiretas ameaçando estuprá-la. Pedi que ela fosse logo pegar uma pistola, preta e robusta e, ao me entregar a arma, ela não acreditou que eu tivesse coragem de atirar no garoto franzino pelas costas enquanto ele dobrava a esquina. Respondi que era apenas uma precaução.


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[G i n g a]   
15.jun.2020  |  Segunda-feira  |  22h37
A partir da ausência que impele o movimento, gira-se o corpo em busca da esfera que flutua distraída, talvez, com a passagem do rio, impávido e sereno em sua marcha oceânica. Nada restará além de uma vaga memória, um recorte enviesado do tempo: o drible que se improvisa no ar evitando o choque, a bola invisível que se amortece no peito, o arremate preciso que explode na trave oculta. Composições se alteram, palavras de ordem lúdica ecoam nos limites da contra costa. E a partir da presença que impede o movimento, gira-se o corpo para o lado oposto em busca da fagulha interior, talvez retraída, necessária para um desenlace de gênio.

Ilha de Boipeba
Novembro, 2019

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Imagem que faz parte da campanha 150 fotos pela Bahia, iniciativa de um grupo de fotógrafos e agentes culturais baianos, que reúne no site www.150fotospelabahia.com.br fotografias autorais doadas por fotógrafos baianos, cuja venda será revertida para instituições sociais e culturais afetadas pela pandemia de Covid-19. Cada foto será vendida por R$ 150,00, e, entregue na residência dos compradores, pelo correio, em papel algodão, no tamanho 20 x 30cm. A campanha é realizada pela NMNC Produção Artística, em parceria com a Fundação Pierre Verger, Canson Infinity e Estúdio Lukas Cravo, e apoio de instituições culturais e educacionais do Estado da Bahia. As fotos também estarão disponíveis no Instagram @150fotospelabahia
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[S  e  r  e  n  d  e  e  p]   
08.jun.2020  |  Segunda-feira  |  13h01
 © 2020

Em 2222, arqueólogos realizavam escavações à moda antiga para catalogar vestígios do homem-vagalume, o último a manter a lucidez até ser trucidado pela onda do Terceiro Ódio. Entretanto, em meio às buscas, pesquisadores constataram que a causa da erradicação da memória no país extremo não fora a gripe letal, mas a saliva infectada de uma ratazana de ridícula estatura, alimentada por matilhas de robôs-borderline. Além disso, cientistas coletaram diversas amostras de crânios com perfurações, ainda embalados por máscaras inúteis de tecido rústico. Estarrecidos, eles também descobriram ossadas dispostas em fila: à espera de um socorro programado para jamais chegar a tempo; asfixiadas no subsolo de uma agência bancária destinada ao massacre em série.

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[Crônica de um amor bandoleiro]
16.abr.2020  |  Quinta-feira  |  18h25
 © 2020

Dentre tantos pensamentos imperfeitos e vastas emoções em torno do nome de Rubem Fonseca, ele sempre me faz lembrar a época magra e solitária em que eu fuçava as estantes do sebo Berinjela, numa transversal da rua Chile. Era algo por volta do ano 2000, um tempo muito propício para esbarrar em malucos dispersos pela cidade, meio desesperados para ler tudo do autor de Bufo & Spallanzani. Conheci diversos.

Um desses amigos, um doido provisório que a vida fez desaparecer aos poucos do convívio, praticava a grande arte da bibliocleptomania sem o menor pudor: em qualquer vacilo de um vendedor de livraria do centro, ele saía sorrateiro e orgulhoso com um RF enfiado sob a camisa. Um objeto de desejo que não raro circulava por mãos escusas até ninguém mais saber o seu paradeiro.

Havia um frisson ao redor da leitura de Rubem, uma certa ingenuidade analógica que nos irmanava. Era inevitável a empolgação com a descoberta de Onze de maio, O inimigo, Relatório de Carlos, A força humana e tantos de seus outros contos e romances. Por outro lado, era uma época inviável para conhecer o passado de Rubem. O seu trabalho como executivo da Light e delegado de Polícia era o máximo que se alcançava. Constatar, tempos depois, como foi intensa a sua participação na propaganda pró-golpe de 1964 foi uma ruptura e tanto, vamos admitir. 

O que vivemos de mais bizarro num país estropiado em 2020 é um híbrido da ficção fonsequiana mais delirante e um rebotalho dos filmetes que ele roteirizou, sob a admiração dos generais, nas dependências do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais [IPÊS]. Talvez esta seja a chave para a sua recusa patológica em participar de entrevistas e eventos literários. 

Assim, a cortina foi se fechando novamente, provocando a nossa asfixia: o Berinjela, os cobradores com um livro debaixo do braço e todos os cinemas do centro desapareceram. Restaram os papéis enferrujados, um buraco na parede da memória afetiva escavado por chutes desferidos por coturnos sem rosto.

Que agora você descanse ao lado dos seus fantasmas. 
A vida é mesmo uma prebenda, José.​​​​​​​