mudança do garcia © 2016

gambiarras • negros cruéis tentadores • batalhões de estranhos • lá no milton’s bar • o mar se levanta com tal desespero • campo da pólvora • santa ceia na ilha amarela • rolimãs • água brusca • soterrópolis • benguela • rampa

Um conjunto de dezessete histórias que retrata particularidades da capital baiana, mas que apresenta também questões universais. Em seu terceiro trabalho individual, o contista trata ficcionalmente múltiplos aspectos de uma cidade singular que termina se revelando como um personagem à parte. Sarcasmo e ironia são elementos marcantes utilizados pelo autor para apresentar, por exemplo, crianças envolvidas numa guerra de facções e o viés dos excluídos que gravitam em torno do carnaval. Contudo, também há espaço para o lirismo ao se revisitar um tempo esquecido, época em que a Cidade da Bahia abrigava o maior porto das Américas. O livro tem apresentação do crítico literário André Seffrin e posfácio do escritor e antropólogo Ordep Serra.
* * *


Gambiarras 


Encontrei Cachorro Gago no canteiro central da Avenida Bonocô, no início da noite. Ele fazia barra nos aparelhos que ficam próximos aos equipamentos destinados às crianças. Parquinho muito do feio. Sentei num dos banquinhos de concreto. Sua testa oleosa brilhava sob a iluminação azulada. Enquanto esperava ele terminar a série, vi a fiação exposta saindo por baixo dos postes. De vez em quando é bom colocar o pé no chão, despertar pra vida. O sofrimento dos motoristas presos no engarrafamento era grande, via-se no rosto agressivo de cada um. Não sei pra que diabos serve um carro imóvel, pensei. Gago largou o suporte enferrujado e desceu ofegante, pingando de suor. Deu umas batidinhas arrumando o cabelo sarará e amarrou o cadarço do tênis imundo. Vestia uma bermuda preta de tactel e a camiseta gasta de um camarote da Avenida Oceânica. Mais jovem, seu maior sonho era levar a namorada pra passar o carnaval num ambiente tudo-incluído. Às pulseirinhas nunca teve acesso. Dentro de sua pochete com patinha do Camaleão havia um saco de doritos. Abriu ruidosamente o embrulho. Depois me disse com sua voz canina:

“A parada com aquele atrasa-lado já tá resolvida”. Croc, croc, croc.
“Resolveu quando, irmão?”
“Ontem, lá pelas quebrada da praia de Stella. Não tá sabendo, não?”
“Tô não, cheguei hoje. Largue o doce aí, pai.”
“Cheguei cedão, tá ligado? Dei uns mergulho e tomei um solzinho, eu tava muito parma. Depois fiquei perto do bar que ele gostava de ir. Quando ele chegou na máquina prateada dele, todo tirado com uma lourona, ele me olhou todo marrento, o feladaputa, pensando que eu era franelinha. Fico com um ódio da porra disso, não gosto de ser tratado como franelinha.”
“Tô ligado.”
“Eles tavam sentado perto da praia, na sombra, ele só no uísque e ela só tirando foto. Tive de esperar um tempo pra ele ficar de vacilo. Quando ele se virou pra chamar a garçonete, já cheguei chegando, meu irmão, dando logo dois pipoco na cara, tá ligado? Peguei o celular e a carteira dele. Deixei a loura gritando e me saí”. Croc, croc.
“Porra, mas você derrubou o cara. Não precisava.”
“Ô véi, você disse que era pra eu dar um susto, não foi? Quer susto maior do que morrer?! Na hora que ele escaldou, apertou a mente de sua chefia, chamou ele de istrupadô e as porra, vocês não fizeram nada.”
“Mas precisava derrubar, negão?”
“Ô, né não, é? Aquela misera tava demais, tinha de rodar mesmo, ele curtia humilhar os parceiro.”
“Tô ligado, irmão.”
“Agora ele vai trabalhar na televisão do inferno.”
“É, mas agora vão correr atrás de você...”
“De mim só, é? É da gente e do dono da boca. Tamo junto, cabeça”, croc.
“É. Tamo junto.”

Tanto faz se as pessoas estão aprisionadas no sentido Iguatemi ou Fonte Nova. Elas nem se assustam mais quando ouvem tiros, mesmo seis estampidos seguidos. Pensam que é comemoração de data festiva. Ou então o contrário: os fogos de artifício são confundidos com mais um tiroteio. Dá no mesmo. Lembrei que estudamos na mesma escola do bairro. Desde pequeno a gente tava predestinado. Um dia, a professora nos flagrou fumando no banheiro. Achou engraçado “seus homenzinhos” ameaçarem tocar fogo em tudo. Ela falou com a diretora, que também riu da situação. Em casa todos rimos. Nossa primeira parceria deu tão certo, que fomos comemorar no shopping comprando roupa de marca. Uns seguranças ficaram na cola, a gente nem ligou. Era nosso dia de folga. Éramos iguais em tudo, menos nas aulas de português. Eu sempre me dei bem, mas ele tinha muita dificuldade com leitura. Tentei ajudá-lo, naquela manhã, soprando a pronúncia correta das palavras. Gaguejava tanto ao ler em voz alta um poema de Drummond, que seu apelido nasceu dali pra ganhar o mundo. Todos gargalhamos da sua desgraça. Até a professora.

Essas memórias chegaram em cores vivas. Havia incredulidade nos seus olhos líquidos quando ele cambaleou. O atrito do corpo se arrastando no piso fez um barulho parecido com o doritos que ele mastigava. Pulei o alambrado baixo e atravessei a pista. Subi pela passarela e fiquei olhando. De longe, Cachorro Gago era um rato mudo e opaco sob a luz azul.

Disponível na Via Litterarum