UnBlack Lisbon | A invisibilidade do negro na fotografia portuguesa

Durante quase dois meses ando a esmo pelas ruas de Lisboa. Entre janeiro e março, o frio e a chuva são intensos, os ossos doem. Os poucos dias de sol e luz são revigorantes. A língua oficial é cosmopolita: idiomas do mundo inteiro circulam nos eléctricos, ocupam as ruas do Chiado, invadem o Mosteiro dos Jerônimos. Cidade fixe onde as pessoas fazem contato visual, numa saudação muda e cálida, sem excessos. Salvador está presente a todo instante: contrastes e semelhanças, saudade e repulsa, fluxo-refluxo enviesado de um lado a outro do Atlântico. Flanar sem destino, vagar fotografando: a forma de descobrir o que a urbe oferece de mais instigante. 

Percebo como são raros os negros onde há a presença massiva do turismo. Deslocados em seu não lugar, permanecem invisíveis ao olhar estrangeiro. Nos sítios onde mais circulo, Praça da Figueira, Rossio, Praça D. Pedro IV e também no Largo São Domingos, onde um memorial evoca o massacre de milhares de judeus, em 1506, noto a explícita separação: de um lado, numerosos grupos de turistas bebem ginjinha; do outro, a algaravia dos imigrantes que conversam animadamente. Observam-se de longe. Não se misturam. Não há diálogo.

Sento-me num dos bancos onde africanos se concentram. Ao perceber que tento fotografá-los, um senhor, alertado por outro, me interpela. “Cá não podes fazer isso”, diz com firmeza, mas sem rispidez. Peço desculpas. Mostro a câmera desligada (alguns registros já haviam sido feitos clandestinamente). No topo desta página, ele aparece apontando um lugar vago. Como se dissesse aos intrusos “fora daqui”. Evito que ele tenha o rosto identificado. É o mínimo. Sendo ele, eu teria feito o mesmo: afinal, quem é você, estranho, por que deseja me fotografar, o que vai fazer com a minha imagem?

Visito a primeira mostra de um fotógrafo português que ainda se considera amador. Vejo emolduradas as vielas de Alfama, idosos contemplativos em suas janelas, roupas estendidas em varais suspensos ao longo das fachadas; becos e escadarias em luz e sombra. Não vejo negras ou negros. Mudo de calçada na rua da Palma e descubro por acaso o Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa. Entro. Há uma exposição de Claudia Andujar sobre os Yanomami, indescritível de tanto sentimento e potência. Na sala de pesquisa, desejo me deparar com um Ferrez ou um Gaensly em versão lusa. A atendente, muito solícita, diz que não há registros de negros, que é muito difícil encontrar esse tipo de imagem. Por sua indicação, ainda procuro no sítio do Centro Português de Fotografia, que fica no Porto. Nada encontro. 

Durante uma aula com José Soudo, folheio o fotolivro mais importante de Portugal: Lisboa, cidade triste e alegre (1959), de Costa Martins e Victor Palla. Pergunto por que é tão raro encontrar pessoas negras retratadas pela fotografia portuguesa contemporânea. “Sim, é difícil. Sei que naquela época [da ditadura] os negros eram considerados como não pessoas”, ele responde.

Do alto do miradouro São Pedro de Alcântara, a vista é muito gira. O vento gelado é cortante. Turistas com Leicas penduradas no peito fotografam os casarios iluminados pelo sol de inverno. Penso nas palavras do mestre Soudo. A depender da direção que se aponte as objetivas, continuaremos todos não sendo. Pessoas. #22AGO17  

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UnBlack Lisbon, 2017 © Tom Correia