2020 © Tom Correia


Crônica de um amor bandoleiro
16.abr.2020  |  Quinta-feira  |  18h25



Dentre tantos pensamentos imperfeitos e vastas emoções em torno do nome de Rubem Fonseca, ele sempre me faz lembrar a época magra e solitária em que eu fuçava as estantes do sebo Berinjela, numa transversal da rua Chile. Era algo por volta do ano 2000, um tempo muito propício para esbarrar em malucos dispersos pela cidade, meio desesperados para ler tudo do autor de Bufo & Spallanzani. Conheci diversos.

Um desses amigos, um doido provisório que a vida fez desaparecer aos poucos do convívio, praticava a grande arte da bibliocleptomania sem o menor pudor: em qualquer vacilo de um vendedor de livraria do centro, ele saía sorrateiro e orgulhoso com um RF enfiado sob a camisa. Um objeto de desejo que não raro circulava por mãos escusas até ninguém mais saber o seu paradeiro.

Havia um frisson ao redor da leitura de Rubem, uma certa ingenuidade analógica que nos irmanava. Era inevitável a empolgação com a descoberta de Onze de maio, O inimigo, Relatório de Carlos, A força humana e tantos de seus outros contos e romances. Por outro lado, era uma época inviável para conhecer o passado de Rubem. O seu trabalho como executivo da Light e delegado de Polícia era o máximo que se alcançava. Constatar, tempos depois, como foi intensa a sua participação na propaganda pró-golpe de 1964 foi uma ruptura e tanto, vamos admitir. 

O que vivemos de mais bizarro num país estropiado em 2020 é um híbrido da ficção fonsequiana mais delirante e um rebotalho dos filmetes que ele roteirizou, sob a admiração dos generais, nas dependências do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais [IPÊS]. Talvez esta seja a chave para a sua recusa patológica em participar de entrevistas e eventos literários. 

Assim, a cortina foi se fechando novamente, provocando a nossa asfixia: o Berinjela, os cobradores com um livro debaixo do braço e todos os cinemas do centro desapareceram. Restaram os papéis enferrujados, um buraco na parede da memória afetiva escavado por chutes desferidos por coturnos sem rosto.

Que agora você descanse ao lado dos seus fantasmas. 
A vida é mesmo uma prebenda, José.