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ruínas • um raibã • o escrivão • corpo estranho • holerite • língua • crônica de um menino morto • crônica de um menino morto II • clinche • híbridos • traqueia • harpias • sob um céu de gris profundo

Selecionado por edital de apoio à edição de livros de autores baianos da Fundação Pedro Calmon/SecultBA, o volume apresenta contos escritos entre 2003 e 2009. Publicado em 2011, as histórias reafirmam o estilo do autor encontrado já no seu primeiro trabalho, Memorial dos medíocres. A densidade de personagens urbanos às voltas com seus fracassos, lembranças e observações existenciais expostos com humor e rispidez, sem dar muita chance a leitores afeitos a amenidades.
* * *

Traqueia

Cão! – Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais…
E irá assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos seus pais!
Augusto dos Anjos

Se eu tivesse dado a volta e entrasse pelos fundos através da janela alta talvez o surpreendesse, mas sua tática de guerrilha para me emboscar era eficiente e eu tinha de me cuidar para não facilitar demais as coisas para ele. Comecei a investida já no prejuízo pois ao pular para dentro pisei em falso numa pedra pontiaguda que me levantou a unha maior. Aquilo me doeu tanto, mas tanto, que chegou a anular a dor que deveras sentia. Eu respirava profundamente para tomar coragem de amputar sem mais delongas uma parte do meu corpo e era óbvio que ele já havia me percebido, não só pelo horário, não só por mim mesmo, mas também pelas minhas barulhentas cafungadas e me dava apenas um tempo para que eu me agachasse, ficando ainda mais vulnerável. Eu apertava meu pé tentando estancar o ferimento, recordando que sempre detestei me ralar desde o tempo em que jogava golzinho debaixo de chuva e às vezes errava o cálculo ao chutar a bola e ouvia o aspérrimo som do meu pé se arrastando pelo aspérrimo asfalto e via com desolação que havia uma rodela em carne-viva na ponta do meu dedão. Aquilo ardia muito, principalmente na hora do banho. Eu tateava o pé no escuro evitando tocar na ferida e já com a quase coragem me tomando aos poucos quando o desgraçado deu um salto repentino, mas um repentino pelo qual eu esperava e até ansiava, e cravou exato seus dentes na minha mão, atravessando-a de um lado a outro, ficando agarrado sacudindo a cabeça, silencioso e selvagem, abrindo uma ferida ainda maior. Para evitar ter a carne dilacerada, numa rápida manobra, agarrei seu pelo e enfiei minha mão o mais fundo que pude pela sua garganta abaixo, ouvi ele ganir sem ar abrindo a boca para não sufocar e pude então retirar minha mão já sob uma espessa camada de espuma raivosa misturada ao meu sangue. Comecei a distribuir vários socos randômicos sequenciados, pois sabia que o atingiria mais cedo ou mais tarde, só que foi bem mais tarde [ele tinha boa esquiva] e isso me deixou logo muito cansado, sem resistência, o que aumentou sobremaneira sua vantagem. O pouco que vi com meus olhos lacrimejantes através da penumbra nos seus olhos coléricos me deu a certeza de que a minha unha e dedo e mão esfolados não significava o pior, pois foi quando finalmente encaixei um cruzado no seu focinho, que ele, bandeando e uivando, tornou-se mais furioso, mostrando seus belos dentes sem nenhuma cárie aparente e pulando a altura do meu peito me desequilibrando facilmente devido à semi-escuridão, algo que me deu um tempo ínfimo suficiente apenas para proteger meu rosto e oferecer o meu antebraço como tira-gosto. Enquanto rolávamos pelo piso frio eu tentava pensar por ele e até que nem era tão difícil assim: éramos de igual natureza e nossos ataques e defesas tinham a lógica dos guerreiros astutos. Diadorim, meu vira-lata hermafrodita, jamais rosnou em treze anos de convivência, nem mesmo quando ele se encontrava agonizante e trêmulo escondido debaixo da cama e teve o seu rabo puxado com força: ainda que sem saber como eu tentava adiar sua morte. Nos dias de chuva, ele fazia xixi abaixado; nos dias de sol, ela levantava a patinha e isso me confundia mais do que me divertia. O infeliz estava mesmo decidido a me trucidar e não tive outra opção a não ser morder sua orelha, empapando de sangue minha camisa de propaganda política das eleições municipais de 92. Mordi com bastante dedicação e senti logo o gosto dos seus pelos molhados pela minha saliva ferruginosa. Ele, agora sem orelha, transformou-se num possuído querendo se vingar a qualquer custo, partindo direto para minha aorta querida, para as minhas amígdalas favoritas. Cuspi os pedaços peludos para longe enquanto pensava que, se fosse ele, tentaria o mesmo, talvez até com mais perversidade e alegria, eliminando a mim e aos homens numa sanha sanguinária seriada, pois são eles que chutam os cachorros, é que cospem nos cães, é que lhes dão pontapés exigindo em contrapartida um rabo abanando de modo submisso e imediato. Mais uma vez ele revigorou-se de ódio, ganindo de infelicidade e arremetendo contra mim como os boxeadores nocauteados em pé fazem no último dos assaltos. Eu já estava encharcadiço de sangues e de babas enraivecidas, minha unha já havia sido bruscamente retirada durante o entrevero e foi só então que percebi como estávamos exaustos. Ele latia ressentido, mas também querendo trégua, pois já havia perdido metade da orelha, um van gogh canino sem auto-retrato nem girassóis e eu também já estava bastante combalido. Eu queria estar no lugar dele. Àquela altura se fosse ele, fingiria que me recolheria a algum recanto da casa até que me sentisse plenamente em condições de engedrar um assalto final. O miserável leu meus pensamentos e depois de sumir em silêncio por um tempo mínimo, voltou misantrópico e determinado a me rasgar o pescoço, o único pescoço, aliás, que eu tinha disponível. Aquele era um animal de sangue muito quente, um cachorro quente contra o qual eu lutava com a melhor das minhas técnicas: minha lealdade a ele. Mais socos e mordidas depois nos convencemos de que era obrigatório parar com aquilo para sairmos dali ainda com alguma vida. Comecei a remover as pilhas de tábua barata e ele começou a arrastar os sacos de areia que bloqueavam a entrada da casa molhada. Trabalhamos bem em equipe mas regularmente nos olhávamos às esguelhas, ainda receosos de uma traição que naquele ponto seria letal para o traído. Por fim pudemos sair, quase lado a lado. Se ele fosse eu, iria comprar gaze, esparadrapo e água oxigenada, tomaria injeção na barriga; se eu fosse ele, iria lamber minhas feridas [se bem que seria meio complexo lamber a própria orelha, mas os cães são sempre safos] e diria quando chegasse em casa “querida, hoje tive uma noite de cão” e muito contente a ouviria latirrindo com minha piada repetida. Sim, se eu fosse ele, trataria ao menos de arranjar uma esposa espirituosa. Mas além disso, se eu fosse ele, guardaria na mente o meu bafo de gins antigos e a minha imagem em preto e branco para que não houvesse espaço para a dúvida quando chegasse a hora da revanche final, da melhor-de-três, do mata-mata. Eu queria ser ele e isso só não seria bom porque era improvável que deixassem um homem em forma de cão entrar no bar para beber com calma enquanto avaliava seu estado de dúvida shakespeariana. E todos os cachorros que tive na infância [exceto Diadorim] se tornaram uma lembrança agressiva e feroz me fazendo ver que sendo ele não confiaria mais em cachorro algum; e que sendo eu, não confiaria mais em homem nenhum. Nos separamos na calçada tomando rumos opostos-temporários: ele seguiu manquitolando com sua orelha pingando sangue e eu segui manquitolando com minha mão pingando sangue. Era cedo ainda mas parece que era dia de final de novela ou de campeonato ou então algo muito importante devia estar sendo transmitido porque havia poucas pessoas nas ruas e quase ninguém notou a nossa deplorável condição de mendicância atropelada. Fui para o bar pensando nele e me arrependi de não tê-lo convidado para um trago, para uma celebração de uma sólida e confiável inimizade eterna. Senti sua falta e, sendo ele, senti a minha falta também. Queria marcar logo a negra, a decisiva, já que aquela havia sido a segunda vez que saíamos na mão, na pata. Dois empates encardidos dentro da casa molhada que eu queria muito para mim, mas aquele desgraçado que eu amava tanto, impedia por estar apenas cumprindo ordens de um outro homem-cão. 

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