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moedas podres • closed captions • fator rh • fator rh (parte dois) • ciclonia • destino de uma anatomia • memorial dos medíocres • maiores cães • teorema do dr. smith • amor e ódio a f. r. • das mães que só enfeitam as casas com angélicas nas manhãs de sábado 

O livro destaca-se pela habilidade na construção dos onze contos que compõem a obra. Céticas e às vezes cínicas, as personagens confessam, nos atos e no discurso, sua incômoda pequenez, sua intransitividade, sua limitação existencial. E assim evidenciam a sua condição de medíocres, num mundo que perdeu a noção dos valores afetivos. Disso resulta um concerto de anti-heróis, párias, marginalizados e visionários, sobretudo desajustados, seres representativos das relações superficiais, vazias ou simplesmente fúteis de um mundo árido e problemático.

Memorial dos medíocres 
Prêmio Braskem de Literatura 2002

Todos os dias passo seis horas da minha vida fazendo uma tarefa que às vezes considero infame: levo pessoas sem brilho e apáticas para cima e para baixo num edifício de arquitetura sem inspiração, caindo aos pedaços. Sou educado apesar de não ter diploma; sou educado apesar do salário, impronunciável como o mais feio dos palavrões. Meus dentes estragados já tornaram há muito tempo o prazer de comer em tortura do tempo da repressão. Não sou só no mundo, mas também não tenho companhia. Sobrevivo. Não consigo me ver como os outros me enxergam. Sou assim: meio eu, meio os outros, para não ser excluído da vida; sou assim: estranho modo de homem. Desprezo aquilo que mais desejo para tentar enganar o meu próprio destino. Às vezes consigo bons resultados desse modo, mas nem sempre é assim. Jamais faço planos, apenas improviso. Não leio muito. No máximo as manchetes e a parte do futebol, com desgosto. Meu time é perdedor. Eu, idem. Mas eu vou indo. Não sei bem para onde e não sei bem para quê. Vou caminhando.
Quando saio no meio da tarde, atordoado e sem norte, me sinto mal. Sinto falta do meu trabalho prestes a despencar e que se transformara num grande amigo. Ele, durante esses doze anos, sempre ouviu com atenção as minhas queixas mudas e os meus lamentos silenciosos. Também sou seu amigo. Cuido dele. Limpo suas portas enferrujadas; passo um pano úmido no seu revestimento de fórmica esburacada; passo uma esponja em cada um dos seus painéis de números apagados. Todo sábado, isso. O movimento é menor. Passo bons momentos com ele lendo antigas revistinhas de caubói. Leio mais por ele do que por mim. Acho que ele gosta. Mas não sei ler direito e ler, cansa. Também ouvimos música num radinho de pilha que ganhei numa rifa. A nossa rádio predileta é uma que tem de tudo. Cartinhas de amor, signo, simpatias, resenha do meio-dia, mas o que gostamos mais é de ouvir o programa da viola. Eles tocam músicas do interior que fazem lembrar a minha infância. Ele gosta não sei por quê. Sei que ele gosta, pois é na hora do programa que ele trabalha melhor. Não enguiça. Não passa do andar. Não emperra a porta. Depois é um caos. Às vezes tenho vontade de mudar, de subir na vida. Talvez num tipo moderno, espaçoso, num edifício imenso. Mas ainda não tenho coragem de deixar o meu velho companheiro. Depois não acham outro para ficar no meu lugar e então, adeus prédio. Acho também que não iria conseguir me adaptar. Sou difícil de fazer amizades. Não iria confiar num tipo novo, metido a rico, todo não-me-toque e com uma câmera traíra a me delatar os gestos e pensamentos vazios. E só de pensar nas pessoas que eu teria de levar, faço cara de nojo. Aquelas mulheres com toneladas de maquiagem no rosto, tentando esconder a futilidade de suas vidas e que olhariam para mim com mais profunda indiferença. Mal diriam “décimo-primeiro” com aquelas vozes antipáticas. E só de pensar naqueles homens vestidos em terno bem cortados, usando perfumes caros de nomes complicados, e os ouvindo falar de dinheiro e aplicações o tempo todo, e os ouvindo falar que não-sei-quem levou aquela da empresa tal para o motel, sinto mais nojo ainda. Diriam o andar com desprezo, sem sequer me dar um bom dia antes. Pelo menos aqui, no prédio de reboco castigado, os poucos que me percebem, que não se sentem furtados porque também uso do oxigênio da Terra, me tratam bem. Me dão bom-dia e agradecem sempre. Sempre que lembram. Às vezes me trazem um doce na volta do almoço. Não acredito que façam por mal. Eles não sabem nada de minha vida. Nem dos meus dentes.
Em dias de euforia geral, como em dia de pagamento por exemplo, as pessoas se transformam. Quase todos me cumprimentam. Até mesmo a mulher ressentida que se veste usando estranhas combinações – amarelo com roxo, cinza com verde – me dá bom-dia com dentes presos, sem dizer o andar e sem sequer olhar no meu rosto. Mas a euforia dura muito pouco. Na exata proporção do dinheiro. Pedaços de papéis coloridos. Apenas eu e o meu companheiro não participamos dessa transformação. Não temos motivo. Depois que tudo passa, só os poucos de sempre continuam a me perceber.
Dias de paradeira, cara de feriado. Dias em que nenhum andar me chama e que me canso dessa estória toda de sobe-e-desce. São em dias como esse que os meus olhos batem na plaqueta de ferro que diz: CAPACIDADE: 12 PESSOAS e não me sinto bem. Fico pensando se eu estaria incluído ou não. Chego mesmo a achar que não. Afinal, que interesse o fabricante teria num simples apertador de botões? Não faz diferença alguma para ele. Se nos dias de esplendor do edifício eles nem sabiam o meu nome direito, hoje, mais do que nunca, sou um número. Eles sabem que existo por causa dos números regendo minha vida: os do cadastro, os do crachá, os do cê-pê-efe e identidade. E a quantidade de vale-transporte que recebo por mês. Sou isso. Um número. Um código de barras vencido.
Este lugar já foi muito bem frequentado. Em vez dos escritórios mortiços de hoje, havia salas cheias de vida e luz própria. Advogados famosos e políticos influentes já passaram por seus corredores. Eu os levava até onde queriam com o auxílio do meu amigo. Impecável, na época. Ventilador de teto, forro de veludo escarlate. Espelhos e piso brilhando. Até eu era mais apresentável, com meus dentes todos em dia. Também havia muitas mulheres enfeitando o ambiente. Eu as informava sobre os horários das salas, em qual andar ficava certo fulano. Não posso contar as vezes em que me vi sozinho com uma mulher bonita. A discrição muda do meu amigo por testemunha. E era muito incômodo. Vontades e medos. Os últimos em maior quantidade. Mas nunca aconteceu nada. Quase nada.
Certa vez uma garota do interior me pediu informação sobre uma clínica. Enquanto eu falava, ela não tirava os olhos verdes e estrábicos de cima de mim. Usava uma mini blusa que havia sido azul algum dia e uma bermuda de um preto pálido. Suas olheiras profundas lhe davam certo ar de desencanto. Começou a me visitar com a mesma roupa e plantando um boato de felicidade. Por pouco não me agarrei a ela como os desempregados em desespero fazem com os classificados de domingo. Saímos às escondidas algumas vezes. Ruas escuras, becos desertos. Ela suportou por pouco tempo o meu modo de lidar com as mulheres. Sumiu por uns tempos para reaparecer num dia inútil de terça. Havia ficado grávida de um policial e carregava sacolas de compras. Da roupa velha, nem vestígios. Antes de sair do prédio e da minha vida, me deu um presente: um pacote de pilhas alcalinas.
* * *
Outro dia apareceu por aqui um cara mal vestido, maltrapilho, que me pareceu familiar. Pediu o ultimo andar. Notei algo em seu rosto que me inquietava. Talvez aquele sorriso de falsa satisfação com as coisas. Só o reconheci depois de alguns minutos: um inimigo de longa data. Do meu tempo de caseiro num sítio, mas agora era um inimigo tão débil e impotente que havia se transformado em mero passado. Não era mais escroto a ponto de me tirar o sono como fazia. Agora ele estava ali, à minha mercê e isso me incomodava. Nunca estive do lado mais forte. Fechei os olhos para não mais captar os detalhes daquele rosto cínico. Fiquei sabendo depois que ele tinha ido procurar trabalho, mas para nossa sorte não havia vaga e ele desapareceu.
Durante todo esse tempo já vi muita coisa por aqui. Vi gente de todos os tipos, formatos, cores; gente que parece desenho animado, artistas de televisão; gente que parece com nada; gente que me faz rir por causa da orelha enorme ou pela roupa extravagante. Ninguém desconfia, pois disfarço com as revistinhas. Já levei gente que vi apenas uma vez e a sensação é de que talvez elas não houvessem existido, de que talvez elas não quisessem se mostrar muitas vezes, por recato ou por paranoia. Já levei por várias vezes ao quarto andar, o do dentista de braços peludos, um velho de olhos fundos e de tosse suspeita. A magreza do velho denunciava alguma doença grave. Mais grave do que uma simples cárie ou um conserto de dentadura. O velho sempre aparecia por volta das duas da tarde, sempre muito educado e respirando com dificuldade, fazendo um chiado incômodo. Por isso eu não ouvia sua voz com clareza. Durante meses foi assim, até que não apareceu mais. Diziam que ele era pai do dentista, mas até hoje não se sabe ao certo. Também não se sabe se é verdade o que dizem sobre o Dr. Rogério: todos insinuam coisas por causa de sua clientela formada apenas por homens. Em anos, raras foram as vezes em que vi uma mulher entrar no seu consultório. Acho que é por isso que não vou até ele para dar um jeito na minha boca esfarrapada. Nunca gostei de vícios tortos. Dizem que ele está de mudança. Apesar dele ser um bom homem (de longe), de me dar bom-dia, tomara que seja verdade.
É fato. As pessoas vêm, passam por mim, fazem parte do meu
 cotidiano durante certo tempo e depois somem. Às vezes reconheço um 
ou outro pelas ruas, mas meu semblante não muda e jamais aceno. Geralmente observo se usam a mesma roupa do dia anterior. E o calçado. 
Para mim, que trabalho num desconfortável banquinho de madeira,
 minha coluna dói menos se deixo a cabeça voltada para a fivela do meu 
cinto. Quando estou assim, fico olhando o tipo de calçado de cada um. Fico assim olhando durante um bom tempo e isso ajuda a passar as
horas. Já conheço todos os sapatos, tênis, botas, sandálias e alpercatas de
quem trabalha por aqui. Sei até quem possui apenas aquele sapato ou
 tênis. Como eu. Uma vez fiquei fascinado por um tênis que um cara alto
e de rosto sem expressão usava. Tive vontade de perguntar onde ele
 havia comprado, mas não sou muito de conversa. Tentei ler o nome da marca e não
 consegui. Só havia um símbolo que lembrava muito as asas de um 
pássaro. Rapidamente esqueci o tênis, lembrei do salário. Um palavrão. 

Conto revisado durante residência artística no Instituto Sacatar entre outubro e novembro de 2015.

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