Crônicas de um mar sem fúria
Projeto selecionado pelo edital de Residência Artística para Escritores
Instituto Sacatar/Funceb 2015

Fotografia e Literatura


Do alto da Esfinge, um dos estúdios da residência no Sacatar, vejo o infinito repertório de luzes em Itaparica. Nenhum dia se repete. As cores do mar se dividem em camadas: a primeira é verde bem claro, confundindo-se com a cor da areia; a segunda, verde esmeralda; a terceira, azul marinho intenso. O escritor, insignificante profissional, se encolhe mais ainda diante da vastidão que o esmaga. Diminuto, desço até o pier. Preciso averiguar se tudo aquilo é mesmo real.

Avisto dois homens e oito cachorros no horizonte. A população canina é predominante na ilha. A luz incide sobre a praia e enquadra o momento numa moldura desconcertante. Os cachorros são vira-latas autênticos. Apenas dois são pretos. Os outros variam nos tons de amarelo. Três deles se destacam do grupo e disparam atrás de pássaros que voam rente à areia. A alegria deles é amplificada pelo ar, uma sensação de liberdade que desconhece limites. Um dos homens assobia, chamando os desgarrados de volta. Eles correm sem se importar com a chance mínima de capturarem uma caça. A cena revela o que já se sabia: os cachorros são capazes de sorrir; nós é que estamos perdendo a conexão, nos transformando em figuras cada vez mais sisudas e paranoicas. Pudera.

A luminosidade hipnotiza. Olho ao redor e confirmo minha suspeita. Apenas eu testemunho a felicidade humano-canina coletiva na tarde de um dia útil qualquer. É impossível não sorrir com as corridas em disparada, os assobios, os latidos esparsos. Lembro de uma tela de Brueghel, o Velho. A tela mostra homens e cachorros de aparência estropiada retornando de uma caça mal sucedida. O cenário é sombrio, há neve. O grupo volta carregando apenas uma raposa esquálida. Num flash, todos os cachorros que tive desde a infância surgem num desfile de diálogos-latidos e caudas agitadas. Os afago, lembro o nome de todos. Mas a maré está subindo. A claridade está diminuindo; os cães da praia, se dispersando. Os cachorros da infância também se retiram, por mais que eu tente mantê-los aquecidos com as luzes da memória.

Os cães graves do pintor flamenco em contraponto aos cães itaparicanos têm algo em comum: saltitantes ou cabisbaixos, todos eles emocionam sob a luz certa. Estou na ponta do pier torcendo para que os cães sorridentes nunca mais parem de correr.